Tem
dias que a crise existencial me pega, passo horas pensando se sigo a vida no
caminho que vou ou se crio coragem pra jogar tudo pra cima e recomeçar do zero.
Quando se pensa só em você mesmo é tão mais fácil, mas aí vem aquele pensamento
na pressão da família, nos questionamentos dos amigos e na desaprovação de
pessoas que você nem gosta muito – mas que dá atenção mesmo assim. O ser humano
é muito louco mesmo, prefere se manter infeliz deixando os outros satisfeitos do
que aproveitar sua chance de ser feliz fazendo o que gosta só por medo de decepcionar quem está próximo dele.
terça-feira, 20 de setembro de 2016
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
A garota da lanchonete - Parte 2
Karina andou até chegar à beira do rio Lonre, parou ali e ficou a olhar as águas escuras, como fazia todo dia após sair do trabalho. O rio Lonre era o maior da região e nele habitavam desde piranhas até enormes crocodilos, o que tornava o local inapropriado para banho. Os enormes monstros não chegavam até aquela margem do rio devido a barreira que haviam montado para impedí-los de atacar os habitantes, mesmo assim era possível vê- los emergir até a superfície da água. Qualquer movimento em falso era uma sentença de morte, se alguém caísse naquele rio seria imediatamente devorado pelos crocodilos, mas Karina gostava dessa sensação de perigo e se postava em cima da barreira de concreto enquanto olhava o comportamento dos animais. De repente, ouviu um barulho de galhos e folhas sendo pisados atrás dela e quando virou viu um homem alto segurando uma arma vindo em sua direção. Karina reconheceu prontamente o homem, era o tarado que havia tentado estuprar a garçonete que trabalhava com ela.
- Olá princesa, como vai?
- O que você quer? ´
- Acho que você sabe o que eu quero. Não consegui com a sua amiguinha feroz, mas conseguirei hoje com você. Dessa vez não vai ter luta corporal, essa arma irá facilitar nossas vidas.
- Melhor você ir embora antes que eu comece a gritar aqui. Tem casas por perto e eles me ouvirão.
- Não tão perto assim, e a essa hora da manhã ou ainda estão dormindo ou já estão no trabalho. Somos só eu e você aqui, então vamos facilitar.
- Não se aproxime de mim, seu estuprador nojento. – Em um rápido movimento ela se abaixou, pegou uma pedra e a jogou na direção do homem, que conseguiu se esquivar, e começou a correr.
- Você acha mesmo que vai escapar, sua garçonete estúpida? – O homem correu atrás dela e rapidamente a alcançou jogando ela no chão. Subiu em cima dela e a imobilizou. – Agora você vai ter o que merece.
Karina tentou escapar, mas o homem era muito maior e muito mais forte que ela. Era impossível que ela conseguisse se livrar dele. Ela tentou gritar mas ele a calou colocando uma meia na sua boca. Karina se sentiu impotente e viu que seu destino havia sido selado: aquele homem a estupraria e depois a mataria, jogaria seu corpo no rio onde aqueles terríveis monstros fariam um banquete.
- Chegou a sua hora, sua prostituta. Você irá pagar pela sua amiga também. Eu vou acab...
O homem não acabou a frase. Foi atingido por uma pedra nas costas e se virou para ver quem a tinha arremessado, mas não havia ninguém lá. Nesse momento, outra pedra o atingiu vindo da sua direita.
- Mas o que diabos é...
De repente houve um estouro e o homem urrou de dor, caindo para o lado e saindo de cima de Karina. Ele começou a se levantar e quando pegava a arma que tinha caído no chão foi atingido por outro estouro que dessa vez acertou seu ombro. Karina rapidamente se levantou e pegou a arma do chão, apontando para o homem caído. Ela finalmente se virou para verificar de onde vinha os estouros, mas não viu ninguém no seu campo de visão. Aproveitando que ela olhava para trás, o homem tentou avançar sobre ela mas Karina reagiu rápido e atirou a queima roupa na perna dele. O homem caía pela terceira vez urrando de dor.
- Você parece um bebê chorão agora. Onde foi parar toda a sua coragem, seu pervertido? Levante- se. - O homem agora chorava e disse a ela que não conseguia. – Levante- se, antes que eu estoure seus miolos. Suba na barreira, agora!
O homem levantou- se lentamente, e mancando subiu na barreira de concreto.
- Por favor, eu te imploro... me deixe ir.
- Ir? Daqui você só sai para a cadeia ou para o cemitério. Sabe o que acontece com pessoas como você na cadeia, não é?
- Pode me entregar, eu suplico...
- Não, não. Essa polícia idiota daqui não vai fazer nada. Você atacou a Sarah e continuou em liberdade. Se tivesse me matado hoje continuaria a cometer seus crimes por aí.
- Eu juro que nunca mais...
- Palavra de estuprador não conta para mim. Diga adeus ao seu joelho.
Karina atirou no joelho esquerdo do homem, que sem equilíbrio desabou de costas dentro do rio. No mesmo instante um enorme alvoroço na água começou e ela correu para a barreira, viu quando os enormes crocodilos atacavam o tarado que gritou durante alguns segundos. A ação foi rápida e logo tudo ficou silencioso novamente.
- Você não fará mal a mais ninguém, seu cretino sujo.
Karina sentiu um enorme alívio, aquele escroto agora estava morto depois de quase ter a matado. Mas ela ainda não conseguia entender quem a tinha ajudado, quem atirara no homem. Pegou a mochila do chão e andou nos arredores do local procurando pelo seu herói ou sua heroína, mas não achou ninguém. Sentiu muito em não poder agradecer quem a salvou, mas agora não queria mais pensar sobre isso. Estava indo embora daquela cidade e iria começar uma nova vida.
sábado, 10 de setembro de 2016
A garota da lanchonete - Parte 1
Karina trabalhava como garçonete na Lanchonete del
Castrillo, entrava às 6 da noite e saia às 6 da manhã. A lanchonete funcionava
24 horas e os funcionários eram divididos em turnos. Pelo turno da noite e
madrugada a movimentação era intensa, muitos viajantes frequentavam o local
para jantar ou fazer um lanche, eram caminhoneiros, motoqueiros e viajantes de
carro, alguns policiais também frequentavam o local. No turno de Karina
trabalhavam outros cinco funcionários, duas moças e três rapazes: as duas moças
e um dos rapazes faziam companhia a Karina atendendo às mesas, e os outros dois
rapazes trabalhavam na cozinha, o dono da lanchonete era o caixa do local.
Karina mantinha o emprego porque com ele conseguia se
sustentar e ajudar os pais em casa, e agora que o movimento havia aumentado
bastante ela estava recebendo um pouco mais com as boas gorjetas. Pensava em
logo se mudar dali, para uma cidade maior, economizava dinheiro para a mudança
e almejava uma nova vida, onde pudesse fazer uma faculdade, arranjar um bom
emprego e tirar os pais daquele buraco em que viviam e que só trazia problemas.
O emprego tinha seu lado ruim: atender aqueles inúmeros viajantes desconhecidos
não deveria ser um problema se não fossem os assédios que ela sofria. Iam desde
assédios verbais até físicos quando, principalmente os caminhoneiros, passavam
a alisavam ou tentavam pôr a mão por baixo da sua saia. Apesar de ter reclamado
com seu chefe, ele não tomava atitudes, não queria perder clientes. Aquele
velho avarento amava o dinheiro mais do que qualquer coisa, e também
justificava que isso a levava a receber melhores gorjetas. Karina repudiava
tudo aquilo, não queria dinheiro daqueles sujos e uma vez quase meteu a bandeja
no rosto de um deles, mas foi impedida pelo velho. Uma vez, um dos rapazes saiu
no tapa com um freguês que assediara Karina e não foi demitido pelo dono da
lanchonete por ser filho dele, mas desde então o velho o colocara na cozinha,
longe dos fregueses onde ele não pudesse mais tornar a arrumar confusão.
Recentemente, uma das moças que era garçonete sofreu
uma tentativa de estupro de um desses clientes maníacos quando ia para casa.
Conseguiu escapar depois de lutar contra o homem e acertá-lo nos olhos com suas
enormes unhas, mas o tarado prometeu vingar-se. A moça então pediu demissão da
lanchonete e se mudou da cidade, não queria pagar para ver o que aquele
lunático poderia fazer com ela. Depois desse episódio assustador, Karina
resolveu que talvez fosse a hora de sair também, tinha guardado um bom dinheiro
e poderia sobreviver um tempo na capital até arranjar um emprego. Ela não
queria ser a próxima vítima de um desses tarados e deu o aviso ao chefe de que
em três semanas estaria saindo de lá, mas o velho tentou persuadí-la a ficar.
Ele gostava de tê- la trabalhando lá porque Karina era uma peça chamativa de
fregueses para a lanchonete. Era uma moça muito bonita e os tarados da estrada
gostavam sempre de frequentar locais onde pudessem ver moças como ela. Karina
repudiou as palavras do velho e resolveu que abandonaria o trabalho naquele mesmo
instante, jogou então o avental em cima dele, pegou sua mochila e se mandou do
local.
Ao sair da lanchonete, ela tirou um cigarro do maço e quando
se preparava para acender ouviu alguém chamando- a. Era Vick, o filho do dono,
que corria até ela com um envelope na mão. Vick e Karina tinham se tornado bons
amigos ao longo do tempo em que trabalharam juntos, ele era um ótimo rapaz e, diferente
do seu pai que era um cretino, tinha um ótimo coração. Logo que se conheceram
houve um clima entre os dois, mas nunca rolou nada entre eles. Após um tempo,
Vick conheceu uma garota que frequentava a lanchonete e começou a namorá-la,
atualmente vivam juntos e já tinham um filho. Mas a amizade entre os dois nunca
mudou ao longo de um ano.
-
Ei, Kari. Você ia embora sem se despedir? – Karina sorriu desconcertada com a
pergunta do amigo.
-
Me desculpe. Seu pai me irritou tanto que eu só queria ir embora dali e não
voltar nunca mais. – Ela então abraçou Vick. – Vou sentir sua falta, talvez a
única coisa que vá me fazer falta nessa maldita lanchonete.
-
Não ligue pro meu pai, ele é um cretino desde que me entendo por gente e vai
ser até morrer. Sinta- se sortuda que você não vai mais precisar vê- lo daqui
pra frente, eu sonho com esse dia há 19 anos.
-
Você deveria ir embora daqui também, leve a Joanie e o Marsh para longe desse
buraco e do seu pai.
-
Tentarei, no próximo ano quem sabe. Aqui está o seu dinheiro do mês, você saiu
com tanta pressa que nem esperou para recebê-lo.
-
Eu não quero esse dinheiro, fique com ele. Considere isso como o início da
poupança que você irá juntar para levar sua família para um lugar decente.
-
Não, é seu dinheiro. Você trabalhou duro por ele e agora que vai ficar um tempo
sem emprego vai precisar, não me faça insistir de novo. Se você não ficar com
ele, vou devolver ao velho. – Vick estendeu o envelope para ela.
-
Nesse caso – ela pegou o envelope e colocou na mochila – prefiro ficar com ele.
Vick a abraçou e se despediu, então deu as costas e
voltou para dentro da lanchonete. Karina ia sentir falta dele, mas tinha no
momento uma enorme sensação de liberdade e felicidade que não experimentava há
muito tempo. Ela então acendeu o cigarro e caminhou pela estrada de terra que
passava ao lado da lanchonete.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Uma visão ou um sonho coincidente?
Carl chegou em frente a um local que lhe parecia
familiar. Ele não sabia exatamente o que ia fazer ou como chegara ali, mas
sabia que havia sido chamado para um compromisso. No portão de entrada estavam
parados dois homens vestidos com casacos pretos, tinham fisionomias sérias e
estavam calados, como se fossem os guardiões do local. Ao se aproximar do
portão, um dos homens lhe falou:
-
É aí dentro, estão te esperando. Suba essas escadas e continue reto no corredor
após a porta.
Carl seguiu as ordens do homem e passou pelos dois,
subindo um lance de escadas de poucos degraus. Ao chegar em frente a porta de
entrada do prédio, ele lembrou-se porque o local lhe parecia familiar: era
muito similar à sua antiga escola. Carl então entrou e seguiu reto pelo corredor,
até chegar em uma segunda porta que ele entendeu que deveria abrir sem precisar
da ordem de nenhum funcionário do local. Ao entrar, ele se deparou com uma sala
imensa com muitas carteiras, mas não teve tempo de reparar direito nos detalhes
do local, sua atenção foi chamada por uma moça que estava sentada em um sofá
verde ao lado da porta de entrada. A jovem chorava copiosamente e Carl ficou
bastante preocupado, então se dirigiu logo a ela.
-
Bom dia, como você se chama? O que aconteceu com você? Precisa de ajuda para
algo?
A moça não respondeu, apenas continuava a chorar e
cada vez parecia mais descontrolada. De repente, Carl ouviu uma voz atrás dele
e percebeu que ela vinha de uma senhora sentada em frente a uma mesa do lado
oposto ao do sofá, e que ele não havia reparado de imediato:
-
Ela estava esperando por você, Carl. Essa é sua missão aqui.
-
Esperando por mim? – Ele perguntou surpreso, pois não conhecia a jovem – Eu
sequer sei quem é ela, o que eu tenho que fazer? Qual o motivo dela chorar
tanto assim?
-
Ela morreu, mas não consegue aceitar que tenha morrido tão jovem. Sua missão é
consolá-la e fazê- la aceitar a morte. Essa é a razão de você estar aqui.
Carl estava em extremo terror. Teria ele também
morrido? Se ele não sabia o que estava acontecendo, como ia conseguir conversar
com a moça e fazê- la entender a morte. Carl fechou os olhos e balançou a
cabeça como se quisesse fazer aquilo tudo desaparecer, mas quando abriu os
olhos a senhora continuava olhando séria para ele.
-
Algum problema Carl? Sente-se mal?
-
Que droga de lugar é esse?
-
Aqui é um lugar para onde os mortos vêm.
-
Então eu estou morto? Como aconteceu? Eu não lembro de nada.
-
Você não está morto, meu jovem. Você só foi chamado aqui para cumprir essa
missão.
-
Isso deve ser o sonho mais louco que eu já tive na vida... ou melhor, o
pesadelo mais louco.
-
Você acha mesmo que isso é só um sonho, Carl? Não te parece ser tudo real?
-
Real? Você acha que...
Carl de repente perdeu a voz. Agora que ele tinha
parado para olhar direito ao redor da enorme sala, havia reparado em um homem
sentado a alguns metros de distância em uma carteira de escola, com as mãos no
queixo e um par de tênis amarrados pelos cadarços repousados no seu ombro. Ele
não pareceu acreditar, mas ele conhecia aquele homem.
-
Gerald? Jerry? – O homem não respondeu, continuou na mesma posição olhando para
a frente e com a mão no queixo. Carl então andou até ele – Ei, Jerry! O que
você está fazendo aqui? - Ao chegar do lado de Jerry, ele o olhou mas não
demonstrou felicidade em vê-lo.
-
Olá Carl, como você está?
-
Jerry, o que você está fazendo aqui?
-
Eu tenho que ficar aqui agora Carl, é o meu lugar.
Carl perdeu o fôlego por uns segundos. O homem ali
sentado era seu colega de trabalho, e apesar de não serem amigos tão próximos,
ele tinha uma grande estima por Jerry.
-
O seu lugar? E a sua esposa? E os seus filhos? E o trabalho, eu te vi na
imobiliária hoje cara, como você veio parar aqui?
-
Venha, vou te mostrar uma coisa. – Jerry se levantou e andou em direção a uma
porta cinza, para onde ele estava olhando antes.
Ao chegar à porta, Jerry a abriu e Carl pode ver um
enorme dormitório, parecido com os do exército. Era um amplo cômodo com duas
dezenas de cama em cada lado e um armário em cima de cada uma. Jerry se
aproximou da terceira cama do lado direito e foi em direção ao armário, abriu a
porta e jogou seu par de tênis lá dentro. Carl ouviu um som alto quando os
tênis bateram no ferro do armário. Jerry então fechou a porta e virou- se para
ele:
-
É aqui que eu tenho que viver agora.
...
Carl acordou suando, se sentia cansado mas estava na
sua cama e sua esposa dormia ao seu lado. Ele percebeu então que aquilo tudo
não havia sido real, mas teria sido apenas um sonho? Carl sentiu como se
realmente estivesse estado ali, como se houvesse tido uma experiência
fora-do-corpo. Pegou seu celular e viu que ainda eram 2 horas da manhã, colocou
o celular de novo no criado- mudo e voltou a dormir.
Carl acordou novamente às 6h30 para ir para o trabalho
e o sonho ainda estava vivo na sua memória, mas a única coisa de que ele
lembrava vivamente era da moça chorando copiosamente. Será que ele a conhecia?
Tentou se lembrar de todas formas, mas não resolveu o mistério. Ele resolveu
não falar sobe o sonho para ninguém, e saiu para trabalhar. Ao chegar à
imobiliária, um dos primeiros rostos que viu foi o Jerry, e a cena do sonho
voltou a sua mente. Ele se sentiu aliviado ao ver que o companheiro de trabalho
estava bem, e cumprimentou- o:
-
Olá Jerry, como você está hoje?
-
Ei Carl, eu estou muito bem. Hoje é o aniversário do meu filho mais novo, minha
esposa ficou de começar os preparativos e vou sair mais cedo para fazer minha
parte também.
-
Como está a Greta? E os meninos?
-
Estão todos maravilhosos, tudo correndo bem. E hoje vou poder tomar uma
cervejinha para aliviar todo o estresse do trabalho.
-
Claro, claro. A gente se fala então. Até mais.
Carl sabia que essa cervejinha provavelmente se
tornaria um problema no fim da festa. Jerry era um ótimo rapaz e uma pessoa
muito calma e pacífica, mas quando resolvia beber acabava perdendo o controle e
se tornava um tanto quanto inconveniente e irresponsável. Carl balançou a
cabeça, deixou ir embora esse pensamento e então ligou o computador para
começar o trabalho.
...
Já se passaram 5 dias desde o sonho extremamente real
que Carl havia tido e ele ainda não havia conseguido descobrir quem era a moça.
Não ficou sabendo de nenhuma parente ou amiga de conhecidos que houvesse
falecido, e nenhuma notícia de alguma grande tragédia envolvendo uma moça havia
saído no noticiário. Ele lavava o carro no jardim da sua casa quando um vizinho
do quarteirão chegou a sua casa e o chamou:
-
Ei Carl, você soube que o Gerald faleceu? – A pergunta não trouxe nenhuma
reação imediata em Carl, e ele imaginou que houvesse sido o velho Gerald que
morava no final da sua rua, afinal o homem já passava dos 90 anos.
-
O velho Gerald da 754?
-
Não, o Jerry que trabalhava com você na imobiliária. - Essas palavras atingiram
Carl como uma pesada barra de ferro, e ele se abaixou por um momento. - Carl,
você está bem?
-
Como aconteceu? Eu vi ele ontem antes de ir embora do trabalho, ele estava bem.
-
Ele foi atropelado agora de manhã. Havia saído para tocar violão e beber com
uns amigos. Ele ficou bêbado e quando estava indo embora na sua moto acabou
invadindo a pista contrária e colidindo com um carro.
-
Oh meu Deus, meu Deus – Carl praticamente sibilava essas palavras – Aquilo foi
real, não foi um sonho, não foi um sonho.
-
Carl – gritou seu vizinho- você está bem? Eu preciso ir, tenho que resolver
algumas coisas. Nos vemos no velório do Jerry?
-
Estou bem, estou bem. Nos vemos sim, até mais. – Carl falou apenas para que o
homem fosse logo embora, ele não pretendia ir ao velório nem ao enterro do seu
colega. Não saberia lidar com a situação.
Carl entrou em casa, deitou na sua cama e passou o resto
do dia lá sem conseguir acreditar no que havia acontecido. Jerry estava morto
como ele havia visto no seu sonho, e se aquilo não foi um sonho? A senhora
disse lá que ele não estava morto, o que era mais estranho ainda. Como ele, que
nunca havia sido sequer um religioso de verdade, tinha o poder de prever uma
morte ou era chamado a um local como aquele para consolar uma pessoa morta? Ele
deveria ter contado o sonho para Jerry? Será que isso teria evitado a morte
dele? Carl não conseguia achar respostas, e cada vez mais perguntas surgiam na
sua mente. Definitivamente, aquilo não havia sido só um sonho, ele realmente
havia tido uma experiência fora-do-corpo e previsto que Jerry morreria. Carl
não sabia como conseguiria lidar com isso daqui pra frente.
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
O amor exige sacrifícios
Eles
se sentaram no fim do espigão, exatamente na última pedra. De lá contemplavam o
mar e o seu barulho, o vento frio e a calmaria que todo o cenário
proporcionava. Toda semana eles faziam aquela espécie de ritual, onde podiam
passar horas abraçados e esquecidos do mundo. Ele tinha passado o braço na
cintura dela, e ela havia se deixado cair sobre o peito dele; a lua estava
cheia e parecia beijar o mar. Foi um longuíssimo tempo de silencio entre os
dois, até que ele finalmente falou:
-Então
você vai realmente embora?
-Você
sabe que sim. Não quero falar sobre isso hoje, só quero ficar aqui contigo.
Estar aqui com você me deixa feliz.
-Não
consigo ficar feliz, não quando eu sei que você vai embora na próxima semana.
Você tem que ficar.
-Já
disse que não quero falar disso...
Ele
se calou, abraçou ela forte e se encostou em uma grande pedra atrás deles. Ele
olhava para o mar, mas não estava olhando de verdade; estava perdido nos seus
pensamentos, lembrando da conversa que os dois tinham tido três semanas atrás,
quando ela contou que estava indo embora: “Meu pai vai ter que trabalhar em
outro país, nós vamos nos mudar daqui um mês”. Foram as palavras que mais
machucaram ele até hoje, os dois estavam juntos a três anos e nunca passou pela
sua cabeça que iriam se separar.
Ela
também olhava através do mar, pensava na mudança que seria sua vida. Ficaria
longe dos amigos de infância e da faculdade, do lugar onde nasceu e
principalmente do namorado. Não sabia porque os seus pais não a deixavam ficar,
já tinha completado 18 anos e podia muito bem se virar sozinha, trabalharia
meio período para se sustentar e dividiria um apartamento com alguma amiga para
aliviar as contas. Mesmo assim seus pais foram intransigentes e não aceitaram a
proposta, agora só restava a ela ter que acompanha-los e o que mais doía nela
era saber que eles não ligavam se a mudança ia fazê-la sofrer, só pensavam
neles mesmos. Depois de um longo tempo, ele quebrou o silencio:
-Case
comigo então. Se nos casarmos, seus pais não vão poder obrigar você a ir.
Ele
havia falado sem pensar, levado pelo desespero de perder a namorada, na hora
parecia uma ideia fantástica, agora que ele tinha dito parecia uma ideia muito
estúpida; ela também achou.
-Casar
com você? Ficou maluco? Se meus pais não querem me deixar morar só aqui,
imagina se vão me deixar casar. Que ideia maluca.- E ela então desatou a rir,
em altas gargalhadas.
-É
uma ideia estúpida, mas é a nossa única chance. Eu mesmo falo com eles.- Ele
continuava a achar a ideia uma estupidez, mas parecia determinado agora a ir em
frente com ela.
-Você
está realmente falando sério? Você parou realmente para pensar nisso? Nenhum de
nós dois está preparado para casar.
-O
que tem de mais? Você queria morar sozinha aqui para trabalhar e dividir um
apartamento com uma amiga, só mudaria que você não dividiria com uma amiga e
sim comigo.
-E
eles não me deixaram dividir com uma amiga, mas vão me deixar dividir com você?
Achei que nesses três anos você já conhecia bem meus pais, isso nunca vai
acontecer se depender deles.
-Posso
tentar pelo menos? Pense bem, é uma ideia boa se pararmos para pensar. Agora
vamos poder estar juntos quando quisermos, não só quando nossos pais deixarem,
e vamos ter nossas próprias regras em casa, vamos fazer o que tivermos vontade.
É uma ideia excelente!
-Continuo
achando meio doida, mas se você está disposto a enfrentar meus pais, faremos
isso juntos. E depois teremos que enfrentar os seus.
-Provavelmente
eles vão achar que nós perdemos o juízo e que é a ideia mais absurda do mundo
dois jovens de 18 anos casarem, mas eles casaram só um ano mais velhos do que
nós. Eles vão acabar aceitando.
Eles
então passaram o resto da noite fazendo os planos para quando estivessem
casados, morando juntos, e o que no começo parecia uma péssima ideia, agora
parecia ser a melhor coisa que os dois poderiam fazer. Os dois iriam agora
lutar para ficarem juntos, mesmo que tivessem que desagradar os pais para serem
felizes. Às vezes o amor exige sacrifícios.
Assinar:
Comentários (Atom)

