terça-feira, 20 de setembro de 2016

O ser humano é muito louco mesmo

Tem dias que a crise existencial me pega, passo horas pensando se sigo a vida no caminho que vou ou se crio coragem pra jogar tudo pra cima e recomeçar do zero. Quando se pensa só em você mesmo é tão mais fácil, mas aí vem aquele pensamento na pressão da família, nos questionamentos dos amigos e na desaprovação de pessoas que você nem gosta muito – mas que dá atenção mesmo assim. O ser humano é muito louco mesmo, prefere se manter infeliz deixando os outros satisfeitos do que aproveitar sua chance de ser feliz fazendo o que gosta só por medo de decepcionar quem está próximo dele.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A garota da lanchonete - Parte 2

Karina andou até chegar à beira do rio Lonre, parou ali e ficou a olhar as águas escuras, como fazia todo dia após sair do trabalho. O rio Lonre era o maior da região e nele habitavam desde piranhas até enormes crocodilos, o que tornava o local inapropriado para banho. Os enormes monstros não chegavam até aquela margem do rio devido a barreira que haviam montado para impedí-los de atacar os habitantes, mesmo assim era possível vê- los emergir até a superfície da água. Qualquer movimento em falso era uma sentença de morte, se alguém caísse naquele rio seria imediatamente devorado pelos crocodilos, mas Karina gostava dessa sensação de perigo e se postava em cima da barreira de concreto enquanto olhava o comportamento dos animais. De repente, ouviu um barulho de galhos e folhas sendo pisados atrás dela e quando virou viu um homem alto segurando uma arma vindo em sua direção. Karina reconheceu prontamente o homem, era o tarado que havia tentado estuprar a garçonete que trabalhava com ela.
- Olá princesa, como vai?
- O que você quer? ´
- Acho que você sabe o que eu quero. Não consegui com a sua amiguinha feroz, mas conseguirei hoje com você. Dessa vez não vai ter luta corporal, essa arma irá facilitar nossas vidas.
- Melhor você ir embora antes que eu comece a gritar aqui. Tem casas por perto e eles me ouvirão.
- Não tão perto assim, e a essa hora da manhã ou ainda estão dormindo ou já estão no trabalho. Somos só eu e você aqui, então vamos facilitar.
- Não se aproxime de mim, seu estuprador nojento. – Em um rápido movimento ela se abaixou, pegou uma pedra e a jogou na direção do homem, que conseguiu se esquivar, e começou a correr.
- Você acha mesmo que vai escapar, sua garçonete estúpida? – O homem correu atrás dela e rapidamente a alcançou jogando ela no chão. Subiu em cima dela e a imobilizou. – Agora você vai ter o que merece.
Karina tentou escapar, mas o homem era muito maior e muito mais forte que ela. Era impossível que ela conseguisse se livrar dele. Ela tentou gritar mas ele a calou colocando uma meia na sua boca. Karina se sentiu impotente e viu que seu destino havia sido selado: aquele homem a estupraria e depois a mataria, jogaria seu corpo no rio onde aqueles terríveis monstros fariam um banquete.
- Chegou a sua hora, sua prostituta. Você irá pagar pela sua amiga também. Eu vou acab...
O homem não acabou a frase. Foi atingido por uma pedra nas costas e se virou para ver quem a tinha arremessado, mas não havia ninguém lá. Nesse momento, outra pedra o atingiu vindo da sua direita.
- Mas o que diabos é...
De repente houve um estouro e o homem urrou de dor, caindo para o lado e saindo de cima de Karina. Ele começou a se levantar e quando pegava a arma que tinha caído no chão foi atingido por outro estouro que dessa vez acertou seu ombro. Karina rapidamente se levantou e pegou a arma do chão, apontando para o homem caído. Ela finalmente se virou para verificar de onde vinha os estouros, mas não viu ninguém no seu campo de visão. Aproveitando que ela olhava para trás, o homem tentou avançar sobre ela mas Karina reagiu rápido e atirou a queima roupa na perna dele. O homem caía pela terceira vez urrando de dor.
- Você parece um bebê chorão agora. Onde foi parar toda a sua coragem, seu pervertido? Levante- se. - O homem agora chorava e disse a ela que não conseguia. – Levante- se, antes que eu estoure seus miolos. Suba na barreira, agora!
O homem levantou- se lentamente, e mancando subiu na barreira de concreto.
- Por favor, eu te imploro... me deixe ir.
- Ir? Daqui você só sai para a cadeia ou para o cemitério. Sabe o que acontece com pessoas como você na cadeia, não é?
- Pode me entregar, eu suplico...
- Não, não. Essa polícia idiota daqui não vai fazer nada. Você atacou a Sarah e continuou em liberdade. Se tivesse me matado hoje continuaria a cometer seus crimes por aí.
- Eu juro que nunca mais...
- Palavra de estuprador não conta para mim. Diga adeus ao seu joelho.
Karina atirou no joelho esquerdo do homem, que sem equilíbrio desabou de costas dentro do rio. No mesmo instante um enorme alvoroço na água começou e ela correu para a barreira, viu quando os enormes crocodilos atacavam o tarado que gritou durante alguns segundos. A ação foi rápida e logo tudo ficou silencioso novamente.
- Você não fará mal a mais ninguém, seu cretino sujo.
Karina sentiu um enorme alívio, aquele escroto agora estava morto depois de quase ter a matado. Mas ela ainda não conseguia entender quem a tinha ajudado, quem atirara no homem. Pegou a mochila do chão e andou nos arredores do local procurando pelo seu herói ou sua heroína, mas não achou ninguém. Sentiu muito em não poder agradecer quem a salvou, mas agora não queria mais pensar sobre isso. Estava indo embora daquela cidade e iria começar uma nova vida.

sábado, 10 de setembro de 2016

A garota da lanchonete - Parte 1

Karina trabalhava como garçonete na Lanchonete del Castrillo, entrava às 6 da noite e saia às 6 da manhã. A lanchonete funcionava 24 horas e os funcionários eram divididos em turnos. Pelo turno da noite e madrugada a movimentação era intensa, muitos viajantes frequentavam o local para jantar ou fazer um lanche, eram caminhoneiros, motoqueiros e viajantes de carro, alguns policiais também frequentavam o local. No turno de Karina trabalhavam outros cinco funcionários, duas moças e três rapazes: as duas moças e um dos rapazes faziam companhia a Karina atendendo às mesas, e os outros dois rapazes trabalhavam na cozinha, o dono da lanchonete era o caixa do local.
Karina mantinha o emprego porque com ele conseguia se sustentar e ajudar os pais em casa, e agora que o movimento havia aumentado bastante ela estava recebendo um pouco mais com as boas gorjetas. Pensava em logo se mudar dali, para uma cidade maior, economizava dinheiro para a mudança e almejava uma nova vida, onde pudesse fazer uma faculdade, arranjar um bom emprego e tirar os pais daquele buraco em que viviam e que só trazia problemas. O emprego tinha seu lado ruim: atender aqueles inúmeros viajantes desconhecidos não deveria ser um problema se não fossem os assédios que ela sofria. Iam desde assédios verbais até físicos quando, principalmente os caminhoneiros, passavam a alisavam ou tentavam pôr a mão por baixo da sua saia. Apesar de ter reclamado com seu chefe, ele não tomava atitudes, não queria perder clientes. Aquele velho avarento amava o dinheiro mais do que qualquer coisa, e também justificava que isso a levava a receber melhores gorjetas. Karina repudiava tudo aquilo, não queria dinheiro daqueles sujos e uma vez quase meteu a bandeja no rosto de um deles, mas foi impedida pelo velho. Uma vez, um dos rapazes saiu no tapa com um freguês que assediara Karina e não foi demitido pelo dono da lanchonete por ser filho dele, mas desde então o velho o colocara na cozinha, longe dos fregueses onde ele não pudesse mais tornar a arrumar confusão.
Recentemente, uma das moças que era garçonete sofreu uma tentativa de estupro de um desses clientes maníacos quando ia para casa. Conseguiu escapar depois de lutar contra o homem e acertá-lo nos olhos com suas enormes unhas, mas o tarado prometeu vingar-se. A moça então pediu demissão da lanchonete e se mudou da cidade, não queria pagar para ver o que aquele lunático poderia fazer com ela. Depois desse episódio assustador, Karina resolveu que talvez fosse a hora de sair também, tinha guardado um bom dinheiro e poderia sobreviver um tempo na capital até arranjar um emprego. Ela não queria ser a próxima vítima de um desses tarados e deu o aviso ao chefe de que em três semanas estaria saindo de lá, mas o velho tentou persuadí-la a ficar. Ele gostava de tê- la trabalhando lá porque Karina era uma peça chamativa de fregueses para a lanchonete. Era uma moça muito bonita e os tarados da estrada gostavam sempre de frequentar locais onde pudessem ver moças como ela. Karina repudiou as palavras do velho e resolveu que abandonaria o trabalho naquele mesmo instante, jogou então o avental em cima dele, pegou sua mochila e se mandou do local.
Ao sair da lanchonete, ela tirou um cigarro do maço e quando se preparava para acender ouviu alguém chamando- a. Era Vick, o filho do dono, que corria até ela com um envelope na mão. Vick e Karina tinham se tornado bons amigos ao longo do tempo em que trabalharam juntos, ele era um ótimo rapaz e, diferente do seu pai que era um cretino, tinha um ótimo coração. Logo que se conheceram houve um clima entre os dois, mas nunca rolou nada entre eles. Após um tempo, Vick conheceu uma garota que frequentava a lanchonete e começou a namorá-la, atualmente vivam juntos e já tinham um filho. Mas a amizade entre os dois nunca mudou ao longo de um ano.

- Ei, Kari. Você ia embora sem se despedir? – Karina sorriu desconcertada com a pergunta do amigo.

- Me desculpe. Seu pai me irritou tanto que eu só queria ir embora dali e não voltar nunca mais. – Ela então abraçou Vick. – Vou sentir sua falta, talvez a única coisa que vá me fazer falta nessa maldita lanchonete.

- Não ligue pro meu pai, ele é um cretino desde que me entendo por gente e vai ser até morrer. Sinta- se sortuda que você não vai mais precisar vê- lo daqui pra frente, eu sonho com esse dia há 19 anos.

- Você deveria ir embora daqui também, leve a Joanie e o Marsh para longe desse buraco e do seu pai.

- Tentarei, no próximo ano quem sabe. Aqui está o seu dinheiro do mês, você saiu com tanta pressa que nem esperou para recebê-lo.

- Eu não quero esse dinheiro, fique com ele. Considere isso como o início da poupança que você irá juntar para levar sua família para um lugar decente.

- Não, é seu dinheiro. Você trabalhou duro por ele e agora que vai ficar um tempo sem emprego vai precisar, não me faça insistir de novo. Se você não ficar com ele, vou devolver ao velho. – Vick estendeu o envelope para ela.

- Nesse caso – ela pegou o envelope e colocou na mochila – prefiro ficar com ele.


Vick a abraçou e se despediu, então deu as costas e voltou para dentro da lanchonete. Karina ia sentir falta dele, mas tinha no momento uma enorme sensação de liberdade e felicidade que não experimentava há muito tempo. Ela então acendeu o cigarro e caminhou pela estrada de terra que passava ao lado da lanchonete.
 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Uma visão ou um sonho coincidente?

Carl chegou em frente a um local que lhe parecia familiar. Ele não sabia exatamente o que ia fazer ou como chegara ali, mas sabia que havia sido chamado para um compromisso. No portão de entrada estavam parados dois homens vestidos com casacos pretos, tinham fisionomias sérias e estavam calados, como se fossem os guardiões do local. Ao se aproximar do portão, um dos homens lhe falou:

- É aí dentro, estão te esperando. Suba essas escadas e continue reto no corredor após a porta.

Carl seguiu as ordens do homem e passou pelos dois, subindo um lance de escadas de poucos degraus. Ao chegar em frente a porta de entrada do prédio, ele lembrou-se porque o local lhe parecia familiar: era muito similar à sua antiga escola. Carl então entrou e seguiu reto pelo corredor, até chegar em uma segunda porta que ele entendeu que deveria abrir sem precisar da ordem de nenhum funcionário do local. Ao entrar, ele se deparou com uma sala imensa com muitas carteiras, mas não teve tempo de reparar direito nos detalhes do local, sua atenção foi chamada por uma moça que estava sentada em um sofá verde ao lado da porta de entrada. A jovem chorava copiosamente e Carl ficou bastante preocupado, então se dirigiu logo a ela.

- Bom dia, como você se chama? O que aconteceu com você? Precisa de ajuda para algo?

A moça não respondeu, apenas continuava a chorar e cada vez parecia mais descontrolada. De repente, Carl ouviu uma voz atrás dele e percebeu que ela vinha de uma senhora sentada em frente a uma mesa do lado oposto ao do sofá, e que ele não havia reparado de imediato:

- Ela estava esperando por você, Carl. Essa é sua missão aqui.
- Esperando por mim? – Ele perguntou surpreso, pois não conhecia a jovem – Eu sequer sei quem é ela, o que eu tenho que fazer? Qual o motivo dela chorar tanto assim?
- Ela morreu, mas não consegue aceitar que tenha morrido tão jovem. Sua missão é consolá-la e fazê- la aceitar a morte. Essa é a razão de você estar aqui.

Carl estava em extremo terror. Teria ele também morrido? Se ele não sabia o que estava acontecendo, como ia conseguir conversar com a moça e fazê- la entender a morte. Carl fechou os olhos e balançou a cabeça como se quisesse fazer aquilo tudo desaparecer, mas quando abriu os olhos a senhora continuava olhando séria para ele.

- Algum problema Carl? Sente-se mal?
- Que droga de lugar é esse?
- Aqui é um lugar para onde os mortos vêm.
- Então eu estou morto? Como aconteceu? Eu não lembro de nada.
- Você não está morto, meu jovem. Você só foi chamado aqui para cumprir essa missão.
- Isso deve ser o sonho mais louco que eu já tive na vida... ou melhor, o pesadelo mais louco.
- Você acha mesmo que isso é só um sonho, Carl? Não te parece ser tudo real?
- Real? Você acha que...

Carl de repente perdeu a voz. Agora que ele tinha parado para olhar direito ao redor da enorme sala, havia reparado em um homem sentado a alguns metros de distância em uma carteira de escola, com as mãos no queixo e um par de tênis amarrados pelos cadarços repousados no seu ombro. Ele não pareceu acreditar, mas ele conhecia aquele homem.

- Gerald? Jerry? – O homem não respondeu, continuou na mesma posição olhando para a frente e com a mão no queixo. Carl então andou até ele – Ei, Jerry! O que você está fazendo aqui? - Ao chegar do lado de Jerry, ele o olhou mas não demonstrou felicidade em vê-lo.
- Olá Carl, como você está?
- Jerry, o que você está fazendo aqui?
- Eu tenho que ficar aqui agora Carl, é o meu lugar.

Carl perdeu o fôlego por uns segundos. O homem ali sentado era seu colega de trabalho, e apesar de não serem amigos tão próximos, ele tinha uma grande estima por Jerry.

- O seu lugar? E a sua esposa? E os seus filhos? E o trabalho, eu te vi na imobiliária hoje cara, como você veio parar aqui?
- Venha, vou te mostrar uma coisa. – Jerry se levantou e andou em direção a uma porta cinza, para onde ele estava olhando antes.

Ao chegar à porta, Jerry a abriu e Carl pode ver um enorme dormitório, parecido com os do exército. Era um amplo cômodo com duas dezenas de cama em cada lado e um armário em cima de cada uma. Jerry se aproximou da terceira cama do lado direito e foi em direção ao armário, abriu a porta e jogou seu par de tênis lá dentro. Carl ouviu um som alto quando os tênis bateram no ferro do armário. Jerry então fechou a porta e virou- se para ele:

- É aqui que eu tenho que viver agora.
...
Carl acordou suando, se sentia cansado mas estava na sua cama e sua esposa dormia ao seu lado. Ele percebeu então que aquilo tudo não havia sido real, mas teria sido apenas um sonho? Carl sentiu como se realmente estivesse estado ali, como se houvesse tido uma experiência fora-do-corpo. Pegou seu celular e viu que ainda eram 2 horas da manhã, colocou o celular de novo no criado- mudo e voltou a dormir.
Carl acordou novamente às 6h30 para ir para o trabalho e o sonho ainda estava vivo na sua memória, mas a única coisa de que ele lembrava vivamente era da moça chorando copiosamente. Será que ele a conhecia? Tentou se lembrar de todas formas, mas não resolveu o mistério. Ele resolveu não falar sobe o sonho para ninguém, e saiu para trabalhar. Ao chegar à imobiliária, um dos primeiros rostos que viu foi o Jerry, e a cena do sonho voltou a sua mente. Ele se sentiu aliviado ao ver que o companheiro de trabalho estava bem, e cumprimentou- o:

- Olá Jerry, como você está hoje?
- Ei Carl, eu estou muito bem. Hoje é o aniversário do meu filho mais novo, minha esposa ficou de começar os preparativos e vou sair mais cedo para fazer minha parte também.
- Como está a Greta? E os meninos?
- Estão todos maravilhosos, tudo correndo bem. E hoje vou poder tomar uma cervejinha para aliviar todo o estresse do trabalho.
- Claro, claro. A gente se fala então. Até mais.

Carl sabia que essa cervejinha provavelmente se tornaria um problema no fim da festa. Jerry era um ótimo rapaz e uma pessoa muito calma e pacífica, mas quando resolvia beber acabava perdendo o controle e se tornava um tanto quanto inconveniente e irresponsável. Carl balançou a cabeça, deixou ir embora esse pensamento e então ligou o computador para começar o trabalho.
...
Já se passaram 5 dias desde o sonho extremamente real que Carl havia tido e ele ainda não havia conseguido descobrir quem era a moça. Não ficou sabendo de nenhuma parente ou amiga de conhecidos que houvesse falecido, e nenhuma notícia de alguma grande tragédia envolvendo uma moça havia saído no noticiário. Ele lavava o carro no jardim da sua casa quando um vizinho do quarteirão chegou a sua casa e o chamou:

- Ei Carl, você soube que o Gerald faleceu? – A pergunta não trouxe nenhuma reação imediata em Carl, e ele imaginou que houvesse sido o velho Gerald que morava no final da sua rua, afinal o homem já passava dos 90 anos.
- O velho Gerald da 754?
- Não, o Jerry que trabalhava com você na imobiliária. - Essas palavras atingiram Carl como uma pesada barra de ferro, e ele se abaixou por um momento. - Carl, você está bem?
- Como aconteceu? Eu vi ele ontem antes de ir embora do trabalho, ele estava bem.
- Ele foi atropelado agora de manhã. Havia saído para tocar violão e beber com uns amigos. Ele ficou bêbado e quando estava indo embora na sua moto acabou invadindo a pista contrária e colidindo com um carro.
- Oh meu Deus, meu Deus – Carl praticamente sibilava essas palavras – Aquilo foi real, não foi um sonho, não foi um sonho.
- Carl – gritou seu vizinho- você está bem? Eu preciso ir, tenho que resolver algumas coisas. Nos vemos no velório do Jerry?
- Estou bem, estou bem. Nos vemos sim, até mais. – Carl falou apenas para que o homem fosse logo embora, ele não pretendia ir ao velório nem ao enterro do seu colega. Não saberia lidar com a situação.


Carl entrou em casa, deitou na sua cama e passou o resto do dia lá sem conseguir acreditar no que havia acontecido. Jerry estava morto como ele havia visto no seu sonho, e se aquilo não foi um sonho? A senhora disse lá que ele não estava morto, o que era mais estranho ainda. Como ele, que nunca havia sido sequer um religioso de verdade, tinha o poder de prever uma morte ou era chamado a um local como aquele para consolar uma pessoa morta? Ele deveria ter contado o sonho para Jerry? Será que isso teria evitado a morte dele? Carl não conseguia achar respostas, e cada vez mais perguntas surgiam na sua mente. Definitivamente, aquilo não havia sido só um sonho, ele realmente havia tido uma experiência fora-do-corpo e previsto que Jerry morreria. Carl não sabia como conseguiria lidar com isso daqui pra frente.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O amor exige sacrifícios

Eles se sentaram no fim do espigão, exatamente na última pedra. De lá contemplavam o mar e o seu barulho, o vento frio e a calmaria que todo o cenário proporcionava. Toda semana eles faziam aquela espécie de ritual, onde podiam passar horas abraçados e esquecidos do mundo. Ele tinha passado o braço na cintura dela, e ela havia se deixado cair sobre o peito dele; a lua estava cheia e parecia beijar o mar. Foi um longuíssimo tempo de silencio entre os dois, até que ele finalmente falou:

-Então você vai realmente embora?

-Você sabe que sim. Não quero falar sobre isso hoje, só quero ficar aqui contigo. Estar aqui com você me deixa feliz.

-Não consigo ficar feliz, não quando eu sei que você vai embora na próxima semana. Você tem que ficar.

-Já disse que não quero falar disso...

Ele se calou, abraçou ela forte e se encostou em uma grande pedra atrás deles. Ele olhava para o mar, mas não estava olhando de verdade; estava perdido nos seus pensamentos, lembrando da conversa que os dois tinham tido três semanas atrás, quando ela contou que estava indo embora: “Meu pai vai ter que trabalhar em outro país, nós vamos nos mudar daqui um mês”. Foram as palavras que mais machucaram ele até hoje, os dois estavam juntos a três anos e nunca passou pela sua cabeça que iriam se separar.

Ela também olhava através do mar, pensava na mudança que seria sua vida. Ficaria longe dos amigos de infância e da faculdade, do lugar onde nasceu e principalmente do namorado. Não sabia porque os seus pais não a deixavam ficar, já tinha completado 18 anos e podia muito bem se virar sozinha, trabalharia meio período para se sustentar e dividiria um apartamento com alguma amiga para aliviar as contas. Mesmo assim seus pais foram intransigentes e não aceitaram a proposta, agora só restava a ela ter que acompanha-los e o que mais doía nela era saber que eles não ligavam se a mudança ia fazê-la sofrer, só pensavam neles mesmos. Depois de um longo tempo, ele quebrou o silencio:

-Case comigo então. Se nos casarmos, seus pais não vão poder obrigar você a ir.

Ele havia falado sem pensar, levado pelo desespero de perder a namorada, na hora parecia uma ideia fantástica, agora que ele tinha dito parecia uma ideia muito estúpida; ela também achou.

-Casar com você? Ficou maluco? Se meus pais não querem me deixar morar só aqui, imagina se vão me deixar casar. Que ideia maluca.- E ela então desatou a rir, em altas gargalhadas.

-É uma ideia estúpida, mas é a nossa única chance. Eu mesmo falo com eles.- Ele continuava a achar a ideia uma estupidez, mas parecia determinado agora a ir em frente com ela.

-Você está realmente falando sério? Você parou realmente para pensar nisso? Nenhum de nós dois está preparado para casar.

-O que tem de mais? Você queria morar sozinha aqui para trabalhar e dividir um apartamento com uma amiga, só mudaria que você não dividiria com uma amiga e sim comigo.

-E eles não me deixaram dividir com uma amiga, mas vão me deixar dividir com você? Achei que nesses três anos você já conhecia bem meus pais, isso nunca vai acontecer se depender deles.

-Posso tentar pelo menos? Pense bem, é uma ideia boa se pararmos para pensar. Agora vamos poder estar juntos quando quisermos, não só quando nossos pais deixarem, e vamos ter nossas próprias regras em casa, vamos fazer o que tivermos vontade. É uma ideia excelente!

-Continuo achando meio doida, mas se você está disposto a enfrentar meus pais, faremos isso juntos. E depois teremos que enfrentar os seus.

-Provavelmente eles vão achar que nós perdemos o juízo e que é a ideia mais absurda do mundo dois jovens de 18 anos casarem, mas eles casaram só um ano mais velhos do que nós. Eles vão acabar aceitando. 

Eles então passaram o resto da noite fazendo os planos para quando estivessem casados, morando juntos, e o que no começo parecia uma péssima ideia, agora parecia ser a melhor coisa que os dois poderiam fazer. Os dois iriam agora lutar para ficarem juntos, mesmo que tivessem que desagradar os pais para serem felizes. Às vezes o amor exige sacrifícios.