Eles
se sentaram no fim do espigão, exatamente na última pedra. De lá contemplavam o
mar e o seu barulho, o vento frio e a calmaria que todo o cenário
proporcionava. Toda semana eles faziam aquela espécie de ritual, onde podiam
passar horas abraçados e esquecidos do mundo. Ele tinha passado o braço na
cintura dela, e ela havia se deixado cair sobre o peito dele; a lua estava
cheia e parecia beijar o mar. Foi um longuíssimo tempo de silencio entre os
dois, até que ele finalmente falou:
-Então
você vai realmente embora?
-Você
sabe que sim. Não quero falar sobre isso hoje, só quero ficar aqui contigo.
Estar aqui com você me deixa feliz.
-Não
consigo ficar feliz, não quando eu sei que você vai embora na próxima semana.
Você tem que ficar.
-Já
disse que não quero falar disso...
Ele
se calou, abraçou ela forte e se encostou em uma grande pedra atrás deles. Ele
olhava para o mar, mas não estava olhando de verdade; estava perdido nos seus
pensamentos, lembrando da conversa que os dois tinham tido três semanas atrás,
quando ela contou que estava indo embora: “Meu pai vai ter que trabalhar em
outro país, nós vamos nos mudar daqui um mês”. Foram as palavras que mais
machucaram ele até hoje, os dois estavam juntos a três anos e nunca passou pela
sua cabeça que iriam se separar.
Ela
também olhava através do mar, pensava na mudança que seria sua vida. Ficaria
longe dos amigos de infância e da faculdade, do lugar onde nasceu e
principalmente do namorado. Não sabia porque os seus pais não a deixavam ficar,
já tinha completado 18 anos e podia muito bem se virar sozinha, trabalharia
meio período para se sustentar e dividiria um apartamento com alguma amiga para
aliviar as contas. Mesmo assim seus pais foram intransigentes e não aceitaram a
proposta, agora só restava a ela ter que acompanha-los e o que mais doía nela
era saber que eles não ligavam se a mudança ia fazê-la sofrer, só pensavam
neles mesmos. Depois de um longo tempo, ele quebrou o silencio:
-Case
comigo então. Se nos casarmos, seus pais não vão poder obrigar você a ir.
Ele
havia falado sem pensar, levado pelo desespero de perder a namorada, na hora
parecia uma ideia fantástica, agora que ele tinha dito parecia uma ideia muito
estúpida; ela também achou.
-Casar
com você? Ficou maluco? Se meus pais não querem me deixar morar só aqui,
imagina se vão me deixar casar. Que ideia maluca.- E ela então desatou a rir,
em altas gargalhadas.
-É
uma ideia estúpida, mas é a nossa única chance. Eu mesmo falo com eles.- Ele
continuava a achar a ideia uma estupidez, mas parecia determinado agora a ir em
frente com ela.
-Você
está realmente falando sério? Você parou realmente para pensar nisso? Nenhum de
nós dois está preparado para casar.
-O
que tem de mais? Você queria morar sozinha aqui para trabalhar e dividir um
apartamento com uma amiga, só mudaria que você não dividiria com uma amiga e
sim comigo.
-E
eles não me deixaram dividir com uma amiga, mas vão me deixar dividir com você?
Achei que nesses três anos você já conhecia bem meus pais, isso nunca vai
acontecer se depender deles.
-Posso
tentar pelo menos? Pense bem, é uma ideia boa se pararmos para pensar. Agora
vamos poder estar juntos quando quisermos, não só quando nossos pais deixarem,
e vamos ter nossas próprias regras em casa, vamos fazer o que tivermos vontade.
É uma ideia excelente!
-Continuo
achando meio doida, mas se você está disposto a enfrentar meus pais, faremos
isso juntos. E depois teremos que enfrentar os seus.
-Provavelmente
eles vão achar que nós perdemos o juízo e que é a ideia mais absurda do mundo
dois jovens de 18 anos casarem, mas eles casaram só um ano mais velhos do que
nós. Eles vão acabar aceitando.
Eles
então passaram o resto da noite fazendo os planos para quando estivessem
casados, morando juntos, e o que no começo parecia uma péssima ideia, agora
parecia ser a melhor coisa que os dois poderiam fazer. Os dois iriam agora
lutar para ficarem juntos, mesmo que tivessem que desagradar os pais para serem
felizes. Às vezes o amor exige sacrifícios.
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