Carl chegou em frente a um local que lhe parecia
familiar. Ele não sabia exatamente o que ia fazer ou como chegara ali, mas
sabia que havia sido chamado para um compromisso. No portão de entrada estavam
parados dois homens vestidos com casacos pretos, tinham fisionomias sérias e
estavam calados, como se fossem os guardiões do local. Ao se aproximar do
portão, um dos homens lhe falou:
-
É aí dentro, estão te esperando. Suba essas escadas e continue reto no corredor
após a porta.
Carl seguiu as ordens do homem e passou pelos dois,
subindo um lance de escadas de poucos degraus. Ao chegar em frente a porta de
entrada do prédio, ele lembrou-se porque o local lhe parecia familiar: era
muito similar à sua antiga escola. Carl então entrou e seguiu reto pelo corredor,
até chegar em uma segunda porta que ele entendeu que deveria abrir sem precisar
da ordem de nenhum funcionário do local. Ao entrar, ele se deparou com uma sala
imensa com muitas carteiras, mas não teve tempo de reparar direito nos detalhes
do local, sua atenção foi chamada por uma moça que estava sentada em um sofá
verde ao lado da porta de entrada. A jovem chorava copiosamente e Carl ficou
bastante preocupado, então se dirigiu logo a ela.
-
Bom dia, como você se chama? O que aconteceu com você? Precisa de ajuda para
algo?
A moça não respondeu, apenas continuava a chorar e
cada vez parecia mais descontrolada. De repente, Carl ouviu uma voz atrás dele
e percebeu que ela vinha de uma senhora sentada em frente a uma mesa do lado
oposto ao do sofá, e que ele não havia reparado de imediato:
-
Ela estava esperando por você, Carl. Essa é sua missão aqui.
-
Esperando por mim? – Ele perguntou surpreso, pois não conhecia a jovem – Eu
sequer sei quem é ela, o que eu tenho que fazer? Qual o motivo dela chorar
tanto assim?
-
Ela morreu, mas não consegue aceitar que tenha morrido tão jovem. Sua missão é
consolá-la e fazê- la aceitar a morte. Essa é a razão de você estar aqui.
Carl estava em extremo terror. Teria ele também
morrido? Se ele não sabia o que estava acontecendo, como ia conseguir conversar
com a moça e fazê- la entender a morte. Carl fechou os olhos e balançou a
cabeça como se quisesse fazer aquilo tudo desaparecer, mas quando abriu os
olhos a senhora continuava olhando séria para ele.
-
Algum problema Carl? Sente-se mal?
-
Que droga de lugar é esse?
-
Aqui é um lugar para onde os mortos vêm.
-
Então eu estou morto? Como aconteceu? Eu não lembro de nada.
-
Você não está morto, meu jovem. Você só foi chamado aqui para cumprir essa
missão.
-
Isso deve ser o sonho mais louco que eu já tive na vida... ou melhor, o
pesadelo mais louco.
-
Você acha mesmo que isso é só um sonho, Carl? Não te parece ser tudo real?
-
Real? Você acha que...
Carl de repente perdeu a voz. Agora que ele tinha
parado para olhar direito ao redor da enorme sala, havia reparado em um homem
sentado a alguns metros de distância em uma carteira de escola, com as mãos no
queixo e um par de tênis amarrados pelos cadarços repousados no seu ombro. Ele
não pareceu acreditar, mas ele conhecia aquele homem.
-
Gerald? Jerry? – O homem não respondeu, continuou na mesma posição olhando para
a frente e com a mão no queixo. Carl então andou até ele – Ei, Jerry! O que
você está fazendo aqui? - Ao chegar do lado de Jerry, ele o olhou mas não
demonstrou felicidade em vê-lo.
-
Olá Carl, como você está?
-
Jerry, o que você está fazendo aqui?
-
Eu tenho que ficar aqui agora Carl, é o meu lugar.
Carl perdeu o fôlego por uns segundos. O homem ali
sentado era seu colega de trabalho, e apesar de não serem amigos tão próximos,
ele tinha uma grande estima por Jerry.
-
O seu lugar? E a sua esposa? E os seus filhos? E o trabalho, eu te vi na
imobiliária hoje cara, como você veio parar aqui?
-
Venha, vou te mostrar uma coisa. – Jerry se levantou e andou em direção a uma
porta cinza, para onde ele estava olhando antes.
Ao chegar à porta, Jerry a abriu e Carl pode ver um
enorme dormitório, parecido com os do exército. Era um amplo cômodo com duas
dezenas de cama em cada lado e um armário em cima de cada uma. Jerry se
aproximou da terceira cama do lado direito e foi em direção ao armário, abriu a
porta e jogou seu par de tênis lá dentro. Carl ouviu um som alto quando os
tênis bateram no ferro do armário. Jerry então fechou a porta e virou- se para
ele:
-
É aqui que eu tenho que viver agora.
...
Carl acordou suando, se sentia cansado mas estava na
sua cama e sua esposa dormia ao seu lado. Ele percebeu então que aquilo tudo
não havia sido real, mas teria sido apenas um sonho? Carl sentiu como se
realmente estivesse estado ali, como se houvesse tido uma experiência
fora-do-corpo. Pegou seu celular e viu que ainda eram 2 horas da manhã, colocou
o celular de novo no criado- mudo e voltou a dormir.
Carl acordou novamente às 6h30 para ir para o trabalho
e o sonho ainda estava vivo na sua memória, mas a única coisa de que ele
lembrava vivamente era da moça chorando copiosamente. Será que ele a conhecia?
Tentou se lembrar de todas formas, mas não resolveu o mistério. Ele resolveu
não falar sobe o sonho para ninguém, e saiu para trabalhar. Ao chegar à
imobiliária, um dos primeiros rostos que viu foi o Jerry, e a cena do sonho
voltou a sua mente. Ele se sentiu aliviado ao ver que o companheiro de trabalho
estava bem, e cumprimentou- o:
-
Olá Jerry, como você está hoje?
-
Ei Carl, eu estou muito bem. Hoje é o aniversário do meu filho mais novo, minha
esposa ficou de começar os preparativos e vou sair mais cedo para fazer minha
parte também.
-
Como está a Greta? E os meninos?
-
Estão todos maravilhosos, tudo correndo bem. E hoje vou poder tomar uma
cervejinha para aliviar todo o estresse do trabalho.
-
Claro, claro. A gente se fala então. Até mais.
Carl sabia que essa cervejinha provavelmente se
tornaria um problema no fim da festa. Jerry era um ótimo rapaz e uma pessoa
muito calma e pacífica, mas quando resolvia beber acabava perdendo o controle e
se tornava um tanto quanto inconveniente e irresponsável. Carl balançou a
cabeça, deixou ir embora esse pensamento e então ligou o computador para
começar o trabalho.
...
Já se passaram 5 dias desde o sonho extremamente real
que Carl havia tido e ele ainda não havia conseguido descobrir quem era a moça.
Não ficou sabendo de nenhuma parente ou amiga de conhecidos que houvesse
falecido, e nenhuma notícia de alguma grande tragédia envolvendo uma moça havia
saído no noticiário. Ele lavava o carro no jardim da sua casa quando um vizinho
do quarteirão chegou a sua casa e o chamou:
-
Ei Carl, você soube que o Gerald faleceu? – A pergunta não trouxe nenhuma
reação imediata em Carl, e ele imaginou que houvesse sido o velho Gerald que
morava no final da sua rua, afinal o homem já passava dos 90 anos.
-
O velho Gerald da 754?
-
Não, o Jerry que trabalhava com você na imobiliária. - Essas palavras atingiram
Carl como uma pesada barra de ferro, e ele se abaixou por um momento. - Carl,
você está bem?
-
Como aconteceu? Eu vi ele ontem antes de ir embora do trabalho, ele estava bem.
-
Ele foi atropelado agora de manhã. Havia saído para tocar violão e beber com
uns amigos. Ele ficou bêbado e quando estava indo embora na sua moto acabou
invadindo a pista contrária e colidindo com um carro.
-
Oh meu Deus, meu Deus – Carl praticamente sibilava essas palavras – Aquilo foi
real, não foi um sonho, não foi um sonho.
-
Carl – gritou seu vizinho- você está bem? Eu preciso ir, tenho que resolver
algumas coisas. Nos vemos no velório do Jerry?
-
Estou bem, estou bem. Nos vemos sim, até mais. – Carl falou apenas para que o
homem fosse logo embora, ele não pretendia ir ao velório nem ao enterro do seu
colega. Não saberia lidar com a situação.
Carl entrou em casa, deitou na sua cama e passou o resto
do dia lá sem conseguir acreditar no que havia acontecido. Jerry estava morto
como ele havia visto no seu sonho, e se aquilo não foi um sonho? A senhora
disse lá que ele não estava morto, o que era mais estranho ainda. Como ele, que
nunca havia sido sequer um religioso de verdade, tinha o poder de prever uma
morte ou era chamado a um local como aquele para consolar uma pessoa morta? Ele
deveria ter contado o sonho para Jerry? Será que isso teria evitado a morte
dele? Carl não conseguia achar respostas, e cada vez mais perguntas surgiam na
sua mente. Definitivamente, aquilo não havia sido só um sonho, ele realmente
havia tido uma experiência fora-do-corpo e previsto que Jerry morreria. Carl
não sabia como conseguiria lidar com isso daqui pra frente.
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